Uma palavra

Descrevendo em uma palavra cada um dos livros:
Cira e o Velho: AVENTURA
Anardeus: ORGULHO
Como tatuagem: PRECONCEITO
Anjo na gaiola: SOLIDÃO
Não que tratem sobre esses asuntos especificamente. Mas são as palavras que me vem à mente quando lembro do processo de escrita. Meu norte. Talvez você tenha palavras diferentes para cada um deles (comente).

Reencontro

“Anjo na gaiola”.

Eu aprendi muito com o lançamento deste livro. Como escritor, como artista, como profissional, como pessoa, enfim.
De longe, é meu trabalho mais sensível. Eu gostaria de dizer que também é o mais autoral, mas ele compete com Anardeus nisso.
Mas é o mais livre.
Nada neste livro recebeu influência comercial, de fórmulas, de gênero. Nada. Da capa até a última página, tudo nele é verdadeiro. Não que opiniões não foram ouvidas, mas elas foram todas sinceras, e também livres. Não havia aquela nuvem do “mercado” sobre nenhuma das decisões que tomei durante qualquer um dos passos da produção deste livro. E cuidei de cada detalhe. Só não fiz duas coisas: impressão, isso foi com a gráfica. E ele foi revisado por minha ex-esposa (que aliás, disse ter tido uma ressaca literária ao lê-lo, o que gostei muito de saber).
Ele saiu como eu queria.
Estou mudando. Não por causa deste livro. Mas ele é parte do processo. Talvez, consequência.
Um caminho que tenho seguido de redescoberta. De limpeza de hábitos e formas de me enxergar que não me faziam bem.
Rita tem muita “culpa” disso tudo. Dessa redescoberta de mim.
E a Sisko é outra consequência. Ela foi criada para que outros/as artistas possam trabalhar com liberdade e confiança. Que possam se encontrar com sua arte e consigo.

Um futuro?

De mim, a pandemia tirou meses de convívio com minha filha. Tirou algumas oportunidades de negócios. Tirou um pouco da liberdade. Tirou um pouquinho da esperança na humanidade.
Sou privilegiado.
De muitos, a pandemia tirou o emprego, os sonhos, a empresa. Tirou o que mais importa: vidas. De parentes, amigos, de conhecidos e de colegas. De pessoas que eram admiradas de longe. De pessoas que pareciam que jamais se ausentariam. Tirou essas pessoas sem direito a velório nem a luto. Arrebatadas.
De alguns, a pandemia tirou as máscaras. Revelou a podridão de suas almas. É só você olhar com um pouquinho de atenção e apurar o olfato. Esforce-se. Você vai sentir o cheiro.
O que ela deu em troca? Caminhos? Pistas?
Não sei. Tenho miopia temporal junto com a espacial. Talvez um futuro que apenas continue a copiar o passado, como já dizia o poeta.
Mas não perdi toda a esperança. Apenas um pouco dela. Porque, se me reconheço privilegiado, também reconheço meu dever de merecer e agradecer esse presente. Seja lá quem o tiver me dado.

Censura

A censura verdadeira é quando um governante usa um apatelho do Estado para perseguir um cidadão que o critique.

Como Jair Bolsonaro fez, ao acionar o ministério da justiça para processar o cartunista Aroeira.

Por isso, os colegas brasileiros se levantaram e criaram a #SomosTodosAroeira cuja intenção é reproduzir a charge que causou o incômodo do (des)presidente.

Aqui vai minha participação:

Cidadão de bem

Aquele sujeito de cabelo bem cortado, tênis confortável, do tipo caro, que não agride a joanete. Pode ser jovem ou ter idade avançada, não importa, porque seu espírito é velho. Não daquela velhice recheada de sabedoria e sensibilidade. Sabe aquela que se queima pelos outros e provoca choro fácil? Nada disso. Esse ser — ainda vivo? — tem mesmo é aquela velhice carcomida, covarde, que ataca e briga, com ou sem motivo que se possa ou não ver. Essa pessoa, se é que se pode dar nome tão nobre, anda por aí, livre, e conversa e discursa. E nada em sua conversa e em seu discurso tem frescor, aconchego ou convite. Tudo é luta e acusação, briga e reclamação.
Cidadão de bem. Cidadã de bem. É como se chamam. Tem muitas mulheres nesse meio. De almas tão decomposta quanto as dos homens. Com que se importam todos eles e todas elas? Com um conforto estranho, que ninguém ameaça. Um tesouro qualquer que ninguém sabe qual é, ninguém vê, ninguém sequer quer.
Cidadão de bem acusa o roubo do outro e não quer que apontem o seu, que nem rouba acredita ser. Como o cidadão de bem rouba, esse maroto! Ele consome e corrompe. E seu mal é melhor que o de qualquer um, porque é bem. Para ele e seus filhos e filhas. Sua corrupção é negócio. A correção dos outros, todos menores, menos importantes que ele, nada mais é que ditadura. Cidadão de bem não tem limite no quanto gosta de ditar regras para as vidas dos outros.
Cidadão de bem mente. Quer saiba a verdade, quer não. Sua língua não presta para muita coisa além disso e de vociferar. E como vocifera, esse sapo velho! Ele cospe, chuta, rosna e xinga.
Cidadão de bem quer que todos morram. Quer ser o último a andar sobre o planeta, que é um disco chato e ditado pela força oculta de vozes que apenas ele escuta e por palavras que só ele lê e repassa.
Cidadão de bem deveria ficar em sua casa, enfiar a cabeça entre os joelhos e esperar a morte, que há muito o deixou por aqui, pois não aguenta sua vociferação, sua ditadura, sua moral, sua luta e sua reclamação.
Cidadão é que não é.
Cidadão, e de bem, nada tem.

Respeite a dor de um pai

Enquanto passeava pela praia, para aliviar um pouquinho o peso do luto, o taxista Marcio Antonio, de 55 anos, flagrou um pequeno grupo de bolsonaristas derrubando as cruzes que haviam sido fincadas na areia para homenagear as vítimas da pandemia. Entre essas vítimas, o filho de Marcio, que tinha 25 anos. Revoltado, o taxista recolocou as cruzes enquanto gritava que a doença é real e pediu que sua dor fosse respeitada.
Os bolsonaristas responderam toda sorte das idiotices que sempre pregam. Todas elas, repetições das insanidades que o presidente, parece, foi eleito para vociferar.
A imagem me comoveu e revoltou. Tento dar atenção apenas à empatia que me faz solidarizar com a dor do pai. Mas é tão difícil não vibrar de ódio pelos monstros fascistas que saíram de seus boeiros quando seu líder foi eleito e que estão demorando tanto a voltar a seus buracos.

O chato quase inteligente

Tem um tipo de chato que me incomoda profundamente. É aquele cara que te faz até se sentir um homem das cavernas, porque é inteligente demais pra você acompanhar.
Como ele se faz perceber dessa forma? Descascando informações, curiosidades e parecendo uma referência bibliográfica viva. Cita uma lista de escritores, filósofos e afins dos quais a maioria dos mortais nem ouviu falar.
Mas aí é que está o engodo.
Ele tem muita informação na cabeça. Mas não pense que ele sabe utilizar isso de outra forma que não seja alimentar sua suposta superioridade.
E ser chato.
Dou um exemplo:
Certa vez, participei de uma reunião do condomínio onde morava. Tinha um desses chatos lá. Ele pedia a palavra toda vez. Alguns momentos, para dar algum dado interessante, mas que não ajudava no debate, como a origem das máquinas dos elevadores. Na maioria das vezes, no entanto, era para apresentar algum dado fora de contexto e desviar a conversa para algum outro problema que ainda não estava na pauta.
Ou seja, falava pra caramba e desviava o assunto.
Ou seja, atrapalhava a reunião.
Ou seja, era chato!
Precisávamos votar algo simples. Concertar as paredes do fosso do elevador para que mais reboco não caísse e acabasse causando um acidente, como já tinha acontecido naquela semana e que, por sorte, não tinha machucado ninguém. Simples, né? Votar uma reforma para garantir a segurança dos moradores.
Pois esse chato fez a reunião durar um triplo do tempo e desviou o assunto e a pauta mais vezes do que consegui contar. Só atrapalhou e, se não o tivessem finalmente cortado, com certeza, algumas semanas depois, alguém seria atingido por concreto dentro do elevador, talvez enquanto estivesse levando os filhos para a escola.
O chato é muito perigoso.
Esse tipo de chato usa uma verborragia cheia de cortesia, bibliografia, auto-isenção e retórica acusatória para defender alguma ideia imbecil ou simplesmente confundir o debate. Os objetivos são variados. Mas, se for um chato, pode crer, não serão bacanas. Ele só quer encher a paciência das pessoas e se sentir superior.

Como Anardeus já foi

Anardeus nasceu no final da década de 1980, quando eu estava no Senai. Na minha ignorância juvenil, dizia que ele era um anarquista, sem nem saber o que isso significava, realmente. Quando suas tiras de humor foram publicadas num jornal regional da Mooca, alguns anos depois, era apenas um tipo de rebelde sem causa, que gostava de causar confusão e contrariar todas as regras sociais.
Mesmo sendo meu único personagem publicado por algum tempo, nunca me preocupei em me aprofundar em sua personalidade. Não era tão interessante.
Só fui revisitá-lo em 2013, primeiro como um conto, depois como meu segundo livro.
Desta vez, eu o compreendi, ampliei, recriei, expurguei. Tornou-se meu personagem mais controverso.
Redesenhei uma das piadinhas que escrevi para ele nos anos 1990 e resolvi colocar no zine que estou produzindo.
Aí vai: