O primeiro capítulo do apocalipse

E aqui está o prólogo de mais um livro: apocalipse traído:

Prólogo
Eram sete, não quatro. E nunca subiram às costas de qualquer animal. Seus pés bastavam para suas viagens.
Eram sete, mas só restaram quatro, pois três não gozavam de respeito.
Quatro não sentiram orgulho pelo que fizeram. Tampouco culpa. Quatro bastavam, disseram.
Eram sete, mas entregaram três à crueldade das pessoas, para queimarem na fogueira.
Eram sete, agora, são quatro. E ainda não se sabe por que se diz por aí que cavalgam. Para quatro que restaram e para três que se foram, seus pés bastavam.

•••

Aldo resgata uma escada de madeira podre que estava caída na calçada, posiciona, abre aquele seu sorriso maroto e sinaliza um joinha para o resto da turma. São dez da noite. Ele, Tonhão, Cibele e André estão junto ao muro que circula o aterro de lixo em frente ao clube Ceret e mal toleram o fedor que grita de lá do outro lado.
Apesar do sorriso e do carisma de Aldo, seu convite não é atrativo:
— Vamos, pô!
— Nem a pau — André responde rápido. — Não tirei a noite pra ficar remexendo lixo — completa, e afaga a cintura de Cibele. Tonhão repara. Uma bola de fogo acende em seu estômago e sobe até a garganta. Tem abafado um ódio ciumento de André desde que percebeu que ele e Cibele estavam de namorico, há duas semanas.
— Larga de ser bunda mole — Aldo desafia. — O Tiba falou que já encontrou uma barra de ouro perdida aí no lixão.
— O Tiba mente pra caramba — Tonhão rebate. — Todo mundo sabe disso.
— “Pra caramba”? — Aldo diz, rindo. — Porra, Tonhão, larga de ser cu de ferro.
— Que foi? — André pergunta baixo para Cibele.
— Tonhão não fala palavrão — ela explica.
Aldo bufa e descansa as mãos na cintura. Balança a cabeça, pensa um pouco e dispara:
— Que se foda! Se vocês são uns bundões, problema de vocês.
Sobe pela escada. Fica em pé sobre o muro, acende uma lanterna, ilumina o ponto onde pretende aterrissar e salta para o outro lado. André balança a cabeça e xinga. Pega na mão de Cibele e declara:
— Vambora, Ci. Não vamos passar nossa noite no lixo.
Cibele não responde, apenas o fita com uma perplexidade que Tonhão já conhecia de outras discussões. O olhar de “donde cê tirou a puta da ideia que manda em mim?” Ele mesmo já foi alvo desse olhar. Uma vez, para nunca mais.
Ela puxa a mão que o namoradinho segurava e é a segunda a subir pela escada e pular para dentro do aterro. Hesitante e derrotado, André vai atrás. Tonhão, logo depois. Quando chega ao alto do muro, tudo o que vê do outro lado é um minúsculo oásis livre de lixo e iluminado pelas duas lanternas acesas. Uma com Aldo, outra com Cibele. Aterrissa e solta um gemido de arrependimento.
— Você também trouxe lanterna? — pergunta para Cibele.
— Não, bobo. É do Aldo — ela responde.
Sua voz é suave e firme. Tonhão gosta de ouvi-la. Em algumas ocasiões — e esta é uma delas — faz perguntas tolas só para ser chamado de bobo com aquela voz e aquele sorriso.
— Que esquisito — André comenta. — Por que tem esse lugar aqui sem lixo?
Aldo explica:
— É onde os maconheiros ficam pra fumar. Por que você acha que tem uma escada ai fora?
— Como é que você sabe? — André pergunta.
Aldo ri:
— Eu conheço todas as quebradas do Tatuapé, mano.
— Conhece nada, não exagera — Tonhão o corrige, com um sorriso de cúmplice. — O Diva já me chamou pra puxar aqui — comenta — mas sempre achei um lugar ruim. Nunca aceitei. Prefiro o quintal do Toco, perto do riozinho.
André sussurra para Cibele:
— O cara não fala palavrão, mas fuma maconha?
Ela ri.
— Vamos — Aldo indica, e sai escalando e tropeçando pela escuridão e lixo.
— Cuidado com o ferro — Cibele avisa, e ilumina um pedaço de concreto do qual saltam vigas enferrujadas. Sai atrás de Aldo, como se fosse a coisa mais lógica a fazer. Os outros dois seguem.
Avançam e desviam de todo tipo de perigos. Os cheiros se confundem e atingem os narizes como petelecos. A consistência do que Tonhão pisa varia e ele nem quer imaginar o estado em que devem estar seus tênis. Aldo segue em frente, como se soubesse para onde está indo. Tonhão repara:
— Tá procurando alguma coisa, Aldo?
Não recebe resposta. Seu amigo apenas avança para uma geladeira velha, deitada com a porta virada para cima sobre um monte do que parecem livros. Tenta abrir e não consegue. Usa um pedaço de pau como alavanca, mas ele parte na segunda investida.
— Que tem aí? — Tonhão pergunta. Mais uma vez, fica sem resposta.
Aldo encontra uma barra de ferro, uma nova alavanca, mais resistente, e que aguenta o tranco.
— Ajuda aqui, caralho! — rosna para os outros.
Tonhão acode.
— Ajuda lá, André — Cibele diz.
— Por quê?
— Tá difícil, não tá vendo?
— Ajuda você, então.
— Estou segurando as lanternas. Vai lá, frouxo.
— Essa foda tá dando muito trabalho, viu? — André rosna para si. E vai ajudar.
Se Tonhão conseguiu ouvir o último comentário de André, é impossível que Cibele não tenha. Ela não diz nada. Por enquanto. Tonhão a conhece, sabe que o namoradinho não ficará impune.
Conseguem abrir a porta da geladeira e encontram um baú de madeira velha e carcomida. Aldo o resgata e deposita sobre uma churrasqueira portátil que Cibele ajeita para servir de mesa.
— Que é isso? — Tonhão pergunta. — Como você sabia desse baú?
— Não sabia — Aldo responde.
— Como não? — André se mete. — Você veio direto pra cá. Abriu ESSA geladeira e agora vai dizer que foi assim, do nada?
— Pura sorte? — Tonhão insiste.
— É — Aldo responde.
— Não fode — André reclama.
— Ah, Aldo… larga disso — Cibele caçoa. — Você nem sabe mentir.
— Eu só… — Aldo ameaça uma confissão, mas não diz nada.
Os quatro ficam meio minuto em silêncio, observando o baú à luz das lanternas. Uns 50 ou 60 centímetros de comprimento, 30 de largura, o mesmo tanto de altura. A tampa arredondada, os cantos e todo o contorno reforçados com um metal sujo. As dobradiças inteiras, apesar da sujeira. Está trancado com um cadeado grande, carcomido por ferrugem. Abre com duas pancadas da barra de ferro de Aldo. Aberta a tampa, os quatro são atingidos por um cheiro cítrico e viscoso, que entorpece e também desperta.
— Que… — Tonhão tenta falar, mas sua voz não obedece mais. Um frio rastejante sobe por suas costas.
Dentro do baú, três crânios, limpos, branquinhos, desdentados e sem as mandíbulas.
— Era isso que você estava procurando, Aldo? — Cibele pergunta.
— Não, porra… Nem sabia que isso tava aí.
— Não fode — André repete. — É lógico que você sabia. Veio direto. Como é que você sabia dessa porcaria?
O silêncio de Aldo persiste. Tonhão interfere:
— Fala logo como é que você soube dessa porcaria!
— Tiba que deu o toque — ele revela. — Falou que viu um camburão da aeronáutica encostar e os soldados trazerem a geladeira pra cá.
— Da aeronáutica? — André grita. — E você trouxe a gente aqui pra recolher caveira de uma geladeira da aeronáutica?
— Eu não sabia de caveira nenhuma, porra!
— E o que você pensou que teria aí?
— Sei lá, pô. Arma, munição.
— E pra que você quer arma e munição? — Tonhão estranha.
— Pra vender, trouxa, pra que mais seria?
— Que merda, Aldo! — André continua. — Podia ter uma bomba atômica aí.
Aldo solta seu riso forte, debochado. Tonhão percebe um timbre de nervosismo nele, mas não comenta.
— E pra que a aeronáutica botaria uma bomba atômica numa geladeira e jogaria no lixão? — Aldo pergunta para André, quando para de rir.
— E pra que a aeronáutica botaria armas e munições em uma geladeira e jogaria no lixão, também? — Tonhão rebate.
— Será que são presos políticos? — Cibele diz.
— Quê? — os três exclamam ao mesmo tempo.
— Pensem bem. Não faz tanto tempo que acabou a ditadura militar. Eles ainda devem estar se livrando dos corpos.
— Caramba, Ci, que imaginação — André caçoa, condescendente.
— Ah, claro! Ter carabina ou bomba atômica faz muito mais sentido, não é? Sério mesmo que você tem coragem de falar uma merda muito maior e ainda querer dar uma de inteligentão pra cima de mim? Só pode ser brincadeira, né?
Aldo solta outra risada. Dessa vez, sem o tom de nervosismo:
— Sifudeu!
André abre a boca para responder, mas engole a primeira tentativa. A segunda é um sussurro, quase inaudível, abafado pela gargalhada de Aldo:
— Vai tomar no seu cu…
A risada de Aldo definha enquanto leva o baú para perto do rosto. Examina, dá batidinhas com os nós dos dedos na testa de uma das caveiras e cheira. Os outros observam, agora atônitos, esperando uma declaração qualquer.
Aldo quebra o suspense:
— Ninguém parou para pensar que esses crânios podem ser falsos, né?
— E são? — Tonhão pergunta.
— Não parece. De plástico não são.
— E agora? — André pergunta.
Aldo examina o baú.
— Acho que é prata — diz.
— O quê? — Cibele pergunta.
— As dobradiças. Esse metal preto. Isso é prata.
— Como você sabe? — Tonhão diz, cético.
— Meu pai trabalha com essas coisas, esqueceu? Isso aí é prata, eu tô dizendo. Tá feio assim porque prata escurece. É só dar uma polida e ela fica como nova.
— E como vai ser? Você vai vender e dar nossa parte? — André pergunta.
Aldo olha para ele com ar de perplexidade por cinco segundos. Depois, mais uma risada explode:
— Que parte, maluco?
— Cê arrastou a gente pra este lixão pra quê? Vamos dividir o que der dessa prata aí.
— E cê fez o quê, hein? Só ficou me seguindo.
— Eu ajudei a tirar esse baú de dentro da geladeira.
— Porque a Cibele intimou.
— Não interessa. Estamos os quatro nesta porra de lixão, vamos dividir a prata em quatro. Você chamou, a gente veio, agora vai dividir. Se não queria assim, que não tivesse chamado.
— Não tem que dividir nada — Cibele se manifesta. — A dica era dele, o trabalho também foi dele, a gente só veio acompanhar.
— Ficou doida, Cibele? Viemos passar a noite no lixão por causa do seu amigo. Alguma coisa a gente tem que levar disso. Deixamos de…
— De quê? Deixamos de fazer o quê, André?
— Minha mãe viajou…
— Ah, então é isso. Achou que ia me comer, não rolou, agora tá aí, todo nervoso e querendo pegar dinheiro do meu amigo.
— E você acha que a gente tá melhor aqui neste lixão do que se curtindo lá em casa? Você é muito…
— O quê? Sou o quê? Burra? Vadia? Vai, do que você vai me chamar agora?
André não chama de nada. Apenas bufa, vira as costas e tenta ir embora. Mas caí cinco passos depois.
Cibele é generosa:
— Tá muito escuro, tonto. Tó, leva a lanterna — e joga.
Ele apanha a lanterna, rosna mais um palavrão e vai embora.
Quando Cibele se volta para os amigos, encontra uma cara de constrangida satisfação em Tonhão e outra de cínica diversão em Aldo, que diz, segurando o riso:
— Pô, você deu a minha lanterna praquele veado…
— Cala a boca, cê já vai ficar com esse baú cheio de prata, nem pensa em me encher o saco por causa daquela merda de lanterna.
Ele ri. Um riso discreto, agora, de cumplicidade, respeito. Tem um amor fraternal por Cibele. Como se fosse sua irmã mais velha. Sente o mesmo por Tonhão. Já disse muitas vezes que ele perde tempo, deixa os babacas chegarem nela. Devia tomar uma atitude, dizer o que sente. Mas Tonhão sempre responde com um “somos só amigos”. Aldo retruca: “Amigos somos eu e ela e eu e você. Vocês dois são só uns babacas que querem se pegar, mas que não resolvem essa merda. Não cagam, nem desocupam a moita.”
— Bom, então é isso. Vamos embora, também. — Aldo vira o baú e despeja as caveiras.
— Que você tá fazendo? — Cibele pergunta.
— Vou levar o baú.
— E esses crânios?
— Deixar aí…
— Não se joga crânio de ser humano fora assim, seu maluco.
— Por que não?
— Porque a gente não sabe de onde veio. De quem era…
— A gente faz o quê, então?
— Entrega pra polícia — Tonhão palpita.
— Isso não! — Aldo responde rápido.
— Por que não? — Cibele pergunta. — É o mais sensato.
Aldo fica em silêncio alguns segundos, matutando. Seus olhos tremem, enquanto o cérebro busca argumentos. Encontra:
— E se forem de presos políticos, como você falou?
— Mais uma razão para entregar pra polícia.
— Não, é justamente o contrário. Se for de preso político, os caras vão querer sumir com os crânios e com quem achou.
— Isso aí já é paranoia, Aldo — Cibele responde. — Se os caras estivessem tão preocupados, não teriam jogado desse jeito.
— Paranoia, porra nenhuma!
Então, Aldo apanha um dos crânios e Tonhão percebe, mesmo com a escuridão, que seus olhos mudam, ganham um brilho intenso de convicção.
Aldo apanha o outro crânio e o entrega a Cibele que, por instinto, o segura. Seu rosto também ganha uma expressão nova, uma que Tonhão nunca tinha visto. Calmaria, como se elucidasse um grande mistério.
— Pensando bem, acho que você tem razão, Aldo. — Ela diz.
— Como assim? — Tonhão quer interferir. Cibele entrega-lhe o último crânio, ele o apanha, e uma calma aglutinadora o toma, assim como uma preocupação legítima.
— É — ouve-se dizer — acho que entregar pra polícia não é uma boa ideia.
Sente uma distância de si mesmo, como se estivesse emprestando-se a outra consciência.
— Decidido então. — Aldo decreta. — vamos ficar com eles.
— Somos três, e são três crânios — Cibele concorda.
— Isso — Tonhão completa. — Não vamos deixar por aqui, jogados, nem deixar com o Aldo. Cada um leva um crânio e fica responsável em esconder.
— Mas é pra tomar cuidado, ouviram? — Cibele reforça.
— Cada um que cuide de sua caveira — Tonhão responde.
Fazem o caminho de volta, com menos cuidado, pisando no lixo com mais pressa e desprendimento. Entre um sofá arregaçado e um fogão enferrujado, Aldo abandona o baú, com suas partes de prata escurecida. Ninguém percebe e ninguém liga. Nem quando chegam ao muro e pulam de volta para a calçada.
Despedem-se com um tchau rápido e cada um segue seu caminho.
Cada um com um crânio.
Cada um que cuide de sua caveira.

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Primeiro capítulo de Anjo na Gaiola

Como prometido no Facebook, aqui vai um gostinho de meu novo livro, Anjo na Gaiola.

Capítulo 1
Menina, sábado, 9 de abril
Ontem eu prendi um anjo na gaiola da vovó.
É de latão, cobre e marfim. A gaiola, não o anjo. As grades têm detalhes em forma de parreiras. No topo, folhas e cachos de uvas. A base é cheia de arabescos e mais uvas e folhas. Vovó me deu no meu décimo segundo aniversário. Disse que estava na família desde mil oitocentos e sei lá quanto, e que estava vazia há mais ou menos uns cinquenta anos.
Vovó, velhinha, com a gaiola nas mãos, os dedos tortos: — Eu ainda era moça quando soltamos o último canário que morou aqui. Era do meu pai. Eu brigava muito com ele por causa dessa mania besta de prender passarinho. Ele morreu num dia, no outro eu abri a portinhola. O bicho quase não voava. Ficou no quintal. Tinha um canto triste, o pobrezinho. Era bonito, isso era. Mas triste.
Vovó tinha uma voz macia. Era alta, mas não parecia, porque a coluna era curva. O pescoço era fino e a cabeça não tremia muito, mal dava pra perceber, a não ser que você olhasse com muita atenção.
Vovó, com os olhos quase afogados. Lacrimejavam o tempo todo: — Eu já era casada quando soltei o canário. Todo dia, teu avô ia até o quintal com um punhado de semente de linhaça e o passarinho vinha posar no ombro dele para comer. Depois, cantava.
Vovó, suspirando e sorrindo: — Era lindo de se ver… Sabe… Teu avô era muito bonito.
Não conheci o vovô, mas vi umas fotos amareladas. Era bonito, mesmo.
Vovó também. Tinha cabelos negros e corpo elegante. Magrinha, magrinha. Já me disseram que pareço com ela. Espero que seja verdade, porque já estou com quase quinze e nem sinal daquela elegância. Gostaria de ter pensado em perguntar a ela com que idade ficou bonita. Agora não dá mais. Vovó morreu um mês depois de me dar a gaiola.
Vovó: — Gaiola é uma coisa feia, com um uso mais feio ainda. Mas esta aqui é tão bem feita, tão caprichada, que acabou ficando bonita… Depois que soltei o passarinho, lavei, tirei a ferrugem, arrumei as grades tortas, e agora ela não prende mais bicho nenhum, só decora a casa; E serve de lembrança.
Eu: — Lembrança de quê?
Vovó, com um sorriso triste: — De tudo. Do teu vô, do canário, de mim. Essa gaiola só serve pra prender isso: lembrança. Se cuidar dela direitinho, eu também vou caber aí dentro, quando virar só uma lembrança.
Eu a coloquei no meu quarto. A gaiola, não a vovó. Pedi ajuda para o meu pai. Ele parafusou um suporte na parede. Comprou numa loja de material para construção. Disse isso e comentou a pechincha que tinha sido enquanto furava a parede para martelar a bucha e enfiar o parafuso. Pendurou a gaiola antes de sair e quase sorriu quando eu agradeci.
Nunca vi as lembranças que a vovó dizia ter ali. E nunca coloquei nada dentro. Sempre esteve vazia.
Até hoje de madrugada.
Eu tinha enchido a barriga com guaraná e pipoca, e esvaziado a cabeça com dois episódios do Flash, que assisti no note. Nunca tinha visto, mas a Kátia gosta e já me encheu tanto, que resolvi dar uma chance. Achei as histórias meio chatas e o ator principal bonitinho. E só. Assisti por pura inércia. Estava começando o terceiro quando as pálpebras pesaram, o pescoço amoleceu e quase bati a testa no teclado. Entrei no pijama, mergulhei na cama e foi só deitar a cabeça no travesseiro para o sono passar. Teimei e esperei. Ganhei sei lá quanto tempo — pareceu uma eternidade — de olhos estatelados, fitando o escuro.
Estava quase derrotando a insônia quando ouvi o barulho. Foi no quintal, perto da minha janela. Um tuf seco. Calcei os chinelos e saí do quarto sem acender a luz. Papai estava dormindo, embalado por um cansaço de fazer não sei o quê, e por cerveja. Papai bebe bastante. Não foi sempre assim. Era só uma garrafa por semana, mas isso foi antes do câncer da mamãe. Ela morreu quando eu tinha dez. Não lembro como era seu rosto.
Por que não lembro como era seu rosto?
Fui para o quintal pela porta da cozinha. Achei um buraco no canteiro de terra. Quando mamãe estava viva, cuidava dele. Tinha rosas e azaleias, uns pés de morango e até uma videira. Hoje, tem um monte de folhas murchas e plantas agonizantes sobre a terra exposta e abandonada. Dentro do buraco, uma luzinha amarelada, pulsante, e um corpinho nu, com asinhas de penas brancas.
Um anjo.
Um bem pequeno.
Estava desacordado. Peguei com cuidado e levei para o quarto. Coloquei em cima de uma flanela, sobre a escrivaninha, e o limpei com algodão e álcool gel.
Vigiei até ele acordar.
Tomou um susto, abraçou as perninhas e ficou me olhando, com uma tremedeira enorme. Achei que fosse medo de ser devorado. De repente, levantou, bateu asas e desandou a voar pelo quarto. Deu rasante pela escrivaninha. Bateu no porta-canetas e esbarrou no diário. As canetas se espalharam, minha monstrinha-marinha de biscuit quase foi pro chão. Subiu um pouco mais e derrubou cinco livros da prateleira. Passou por cima da minha cama, quase se arrebentou na cabeceira. Só foi parar quando deu de cara contra o espelho da porta do guarda-roupa. Não sei como não se quebrou todo ou o espelho. Caiu no chão, numa posição ridícula, as asinhas tortas. Pensei que tinha morrido, mas seu peito se mexia e não tinha ferimento. Só estava apagado, mesmo.
Eu o coloquei na gaiola da vovó.
Não sei por que fiz isso. Parecia o mais certo. Deveria tê-lo acordado, perguntado de onde vinha, o que queria. Mas não fiz nada disso. Só deitei de novo. Dessa vez, apaguei logo de cara, sem insônia.

•••

Quando amanheceu, acordei de repente, chupando ar, como se tivesse me salvado de um afogamento. Pulei da cama.
Teria sido sonho?
Não foi.
Não é.
O anjo está aqui, dentro da gaiola. Mudou de posição e continua dormindo. De barriga para cima, o peito subindo e descendo, acompanhado de um chiadinho agudo. Deve ser assim que os anjos roncam.
Cubro a gaiola com o lençol que ganhei da vovó, quando fiz onze anos.
Vovó, entregando: — Guarde direitinho, está bem?
É todo vermelho, com exceção de uma margarida bordada enorme, bem no centro. Vovó tinha um acordo com o papai, desde quando ele era criança. Qualquer coisa debaixo daquele lençol não era para ele mexer. O pacto ainda valia quando ela me deu, com um sorriso de cúmplice. Disse que era para eu guardar meus segredos.
A lei ainda vale. Se quero que o papai não toque em alguma coisa, é só cobrir com o lençol da margarida. Ele não mexe mesmo. Não sei a história desse acordo, nenhum deles quis me contar, por mais que eu perguntasse.
Confiro a hora. É cedo e o sol já nasceu.
Dormi pouco, mas não me sinto cansada. Deve ter sido um sono pequeno e muito bom.
Agora estou na cozinha e dá para ouvir o ronco do meu pai que vem lá do quarto. Parece um exército de elefantes cantando lá dentro. Não vai levantar tão cedo. Nunca levanta, de sábado.
Fervo leite e passo café. O pãozinho está duro. Lambuzo com manteiga e esquento no micro-ondas para amaciar um pouco. Não como tudo, guardo um pedaço para o anjo.
Vou ao banheiro e faço o que tenho que fazer com pressa, tomo um banho rápido, resgato o pedaço de pão do forno e volto para o meu quarto. A sinfonia dos elefantes continua firme e forte. Deve dar para ouvir lá da rua, que é para onde dá a janela do quarto do meu pai.
Nossa casa é velha. Uns quarenta anos, eu acho. Quando papai comprou, minha mãe estava grávida. De mim, claro. Não tenho irmão, nem irmã. Antes, eles moravam num cômodo no fundo do quintal da vovó.
A casa é térrea. A grade da frente é baixa e precisa de pintura. A última cor que ostentou foi cinza. Uma vaga para carro logo depois do portão, ao lado do canteiro. Ociosa, porque meu pai odeia dirigir e diz que carro é um gasto desnecessário. Na verdade, dizia. Hoje em dia, mal abre a boca para dar opinião sobre qualquer coisa. A vaga seria maior, mas minha mãe pediu para dividir com uma porta envidraçada e formar uma edícula, que ela usou para plantar flores e samambaias em vasos pendurados pelas paredes. Papai nunca teve interesse, paciência ou o que quer que seja necessário para cuidar de plantas. Deixou tudo morrer e jogou fora. Hoje, a edícula é só mais um espaço tão vazio quanto a garagem.
Nome engraçado esse. Edícula. Não sei se está certo, se esse é o nome que se dá a esse tipo de coisa. Minha mãe chamava assim, meu pai também. A Kátia, quando viu, disse que era uma estufa. Falei que não, que estufas têm teto de vidro. Não sei se foi um argumento válido, eu só queria defender o nome que meus pais usavam. Tem uma porta que dá para a sala e outra para o quintal. Entrando na sala, para a esquerda fica o quarto principal. Era do meu pai e da mamãe, hoje só ele ronca lá. Para a direita, uma porta sanfonada se abre para a cozinha. Ao lado da pia, uma saída para o quintal. Passando pela mesa — que é bem velha, daquelas que abrem e você encaixa um pedaço no meio para ficar mais comprida —, um corredor leva para o banheiro principal, à direita, e ao meu quarto, em frente. Lá no fundo fica a lavanderia e mais um banheiro pequeno. Só dá para chegar passando pelo quintal.
Meu quarto não é grande. É preciso. Preciso de precisão, não de necessidade. As coisas têm o tamanho certo e se encaixam. Capricho da mamãe. Só a gaiola é que fica deslocada, ao pé da cama, sustentada por um pedestal de ferro repintado de verde. Desconfio que mamãe, quando mandou montarem o quarto, nunca imaginou que, um dia, vovó cismaria em me consolar por sua morte com esse trambolho. Também não deve ter imaginado que, um dia, eu colocaria um anjo dentro. Ou que esqueceria como era o rosto da minha mãe.
Passo muito tempo em meu quarto. Muito mesmo. Este final de semana não será diferente.
Tranco a porta e tiro o lençol de cima da gaiola. Encontro os olhos do anjo. Está sentado, os bracinhos cruzados, cara de bravo. Não digo nada. Ele se levanta, coloca as mãos na cintura e vem para perto da grade. Seu rosto parece um pêssego, tanto no formato quanto na textura da pele. Os olhos são grandes e brilhantes, o crânio largo e redondo, queixo fino, delicado. A boca é pequena e os lábios carnudos, úmidos, avermelhados. Os cabelos negros, lisos e compridos esparramam-se sobre os ombros pequenos. Os membros são finos, o tronco magro. Digo anjo, masculino, por puro hábito, porque não sei dizer qual o gênero desta criaturinha. Onde deveria ter um órgão sexual, tem só um campo liso. Também não tem umbigo.
Eu, levantando o prato à altura da gaiola: — Tá com fome? Trouxe pão.
O anjo não vê o pão. Seus olhos estão grudados nos meus.
Eu, sem baixar o prato: — Você é menino ou menina?
Ele suspira e olha para o lado, balançando a cabeça. Suas asas eriçam levemente.
Anjo, depois de estalar a língua: — Nem uma coisa nem outra.
Sua voz é linda, musical, ressonante. Perfeita.
Estremeço.
E esqueço o que acabei de perguntar. Fico não sei quanto tempo parada, como uma idiota, olhando para a gaiola. É o som de uma nova estalada de língua que me desperta. Respiro fundo, coço a cabeça e coloco o prato com pão sobre a escrivaninha. Quero perguntar tanta coisa ao anjinho engaiolado, mas as dúvidas agora parecem lubrificadas e escorregam para longe da minha cabeça.
Eu, idiota: — É que você parece uma menina.
Anjo, irritado: — Mas não sou. E não sou menino, também. Satisfeita? Espero que sim. Próxima pergunta, por favor.
Dou uma risada baixa, aguda, nervosa, cheia de vergonha.
Eu, ainda idiota: — Pensei que anjo fosse maior.
Ele bufa e se senta no fundo da gaiola, pernas cruzadas e cotovelos apoiados sobre as coxas. Balança a cabeça, inconformado. Faz cara de quem está diante de uma ignorante sem salvação.
Anjo: — Tem anjo de tudo quanto é tamanho. Tem grande, médio, pequeno. Tem anjo maior que montanha e anjo menor que eu.
Eu me sento sobre a cama. De onde estou, só dá pra ver a cabeça e um pedacinho das asas.
Eu: — Que aconteceu?
Anjo: — Como assim?
Eu: — Por que você estava no meu quintal?
Anjo, como se estivesse dizendo a coisa mais lógica do mundo: — Cai do céu, oras!
Eu, confusa: — Caiu? Como?
Anjo, encabulado: — Escorreguei.
Eu, de olhos arregalados, levantando: — Escorregou?
Anjo, irritado: — É, escorreguei. Estava te vigiando, estiquei muito o pescoço, a mão escorregou na beirada da nuvem, caí. Satisfeita?
Eu: — Por que você estava me vigiando?
Anjo: — Porque sou teu anjo da guarda! Por que mais estaria te vigiando?
Chego mais perto da gaiola.
Eu, muito confusa: — E o que eu faço, agora?
Anjo: — Você poderia começar sendo simpática e perguntando se eu não me machuquei quando caí. Afinal, é uma distância grande e eu cheguei a pegar fogo na entrada da atmosfera.
Eu: — Desculpa, desculpa! Como… Como você está? Você se machucou? Precisa ir para um hospital? Veterinário? Tenho que te levar para um veterinário?
Anjo: — VETERINÁRIO?
Eu, um caso perdido: — Desculpa! Desculpa!
Sento-me novamente e escondo o rosto nas mãos. Sinto o peito contrair, a barriga convulsionar e tento segurar, mas o riso acaba escapando e sai do controle.
Rio.
Rio sem saber bem o porquê. Foi engraçado? Foi ofensivo? Estou com vergonha, medo ou felicidade?
Rio até o ar faltar e as lágrimas me cegarem.
Quando consigo me controlar, vejo o rosto torcido do anjo, me fitando lá da gaiola.
Anjo, amargo: — Que bom que te divirto.
Eu, mais leve, graças ao ataque de riso (acho que estava precisando): — Desculpa. Foi… Eu… Desculpa. Eu não sei por que eu ri. Acho que estou meio… Sei lá… O que você quer? Quer que eu te solte pra você poder voltar pro céu?
Anjo, levantando e respondendo rapidamente: — NÃO!
Eu, surpresa: — Por que não?
Anjo, tentando disfarçar a vergonha: — Eu não posso voltar.
Eu: — Não pode voltar? Por que isso? Quebrou as asas?
Anjo: — Não. É a regra. Anjo que cai não volta.
Eu: — E o que você vai fazer, então?
Anjo, com voz triste: — Se você me soltar, eu vou tentar voltar para o céu. É o que a minha natureza manda. Só que eu não vou conseguir e vou cair mais. Vou parar lá… você sabe…
Eu: — Onde?
Anjo, revirando os olhos: — Lá.
Eu: — Lá onde?
Anjo, apontando para baixo: — LÁ!
Eu, finalmente entendendo: — Ah, tá…
Vou até a gaiola e começo a mexer na trava da portinha.
Anjo, gritando, a voz sem melodia, aguda: — NÃO! O QUE VOCÊ TÁ FAZENDO?
Eu, paralisada: — Ia te soltar…
Anjo, virando a cabeça e me fitando: — Você tem algum problema? É burra ou coisa do tipo? Não escutou o que eu falei? Se você me soltar, eu vou tentar ir pro céu e vou cair pro inferno.
Eu, hesitante: — Eu entendi…
Anjo, com voz rasgada, uma mistura de giz arranhando lousa com rosnado de gato. Do tipo que provoca um arrepio que sobe do fim da espinha até a nuca. Os olhos faiscando, vermelhos: — SE ENTENDEU, ENTÃO POR QUE ESTÁ ABRINDO A DROGA DA PORTA DA GAIOLA?
Não consigo responder. Meu coração está batendo muito forte.
Anjo, a voz normal: — Você quer me ferrar, é? Não é para me deixar sair.
Eu, com voz trêmula, o coração chega a doer, de tão acelerado: — Você quer ficar preso dentro da gaiola? A janela e a porta estão fechadas. Não vou deixar você sair do quarto. Não pode nem isso?
Anjo, tentando retomar a calma: — Eu vou acabar dando um jeito de sair. É mais forte que eu. Se sair desta gaiola, sou capaz de quebrar a janela. Vou tentar subir, mas as asas vão pegar fogo e eu vou cair. Já vi acontecer. Não é legal. Aqui dentro, eu estou tranquilo. Deve ter alguma coisa com essa gaiola, alguma energia residual, sei lá.
Eu: — Então, você vai ficar ai dentro? Tipo… pra sempre?
Anjo: — Melhor do que ir pra… lá. Tem ideia de como é?
Eu: — Não.
Anjo: — Lógico que não! Nem vai querer saber. É uma grande porcaria. Tem gente queimando, gritando, chorando. Tem fogo pra todo lado, uns cachorros sem pelo e uns gatos com mãos de macaco, uns jacarés com pernas de galinha e um monte de piranhas com pés descalços.
Ficamos em silêncio alguns segundos.
Eu: — Piranhas com pés descalços?
Anjo, ignorando: — Posso comer o pão, agora?
Passo um pedacinho entre as grades. Ele come.
Eu, sentando-me novamente: — Então… Como ficamos? Você vai morar aqui, agora? Na gaiola?
Anjo, com a boca cheia: — É o jeito. Não vejo alternativa. E como não posso mais ser seu anjo da guarda, serei seu conselheiro.
Eu: — Conselheiro?
Anjo: — É… Conselheiro. Não sabe o que é um conselheiro? É alguém que te dá conselhos.
Eu: — Eu sei o que é um conselheiro…
Anjo: — Sabe? Pois não parece. Enfim… Eu fico aqui te aconselhando. Pode acreditar, você vai precisar.
Eu: — Vou precisar? Por quê?
Antes que ele responda, ouço os passos do meu pai. Jogo o lençol sobre a gaiola. Ele bate à minha porta.
Meu pai, abrindo a porta e resmungando com voz pigarrenta: — Já é quase sete. Vai se atrasar pra escola.
Eu, torcendo para que ele não perceba minha agitação: — Já vou… — Uma lembrança aterrissa na cabeça: — Hoje não tem aula, pai. É sábado.
Meu pai, levantando as sobrancelhas, como se estivesse percebendo algo engraçado, mas não o suficiente para rir: — Ah…
Ele corre os olhos pelo quarto e encontra o lençol da margarida. Seu rosto amassado não consegue disfarçar a contrariedade. Seus olhos brilham desconfiança e curiosidade. Quer dizer algo, provavelmente, perguntar o que é tão importante que precisa ser escondido sob o lençol da margarida. Mas o acordo que fez com minha vó ainda está valendo. O lençol é sagrado. Fecha a porta e ouço seus chinelos arrastarem até a cozinha.
Eu, para o anjo, enquanto tiro o lençol: — Você precisa de alguma coisa? Água, comida?
Anjo: — Não preciso de nada. Eu não como, não bebo, nem preciso de nada.
Eu: — Mas você comeu um pedaço do pão…
Anjo: — Eu POSSO comer. Não quer dizer que precise. O que eu preciso mesmo é dormir. Cair do céu dá um sono danado.
Sem dizer mais nada, deita-se e eu cubro a gaiola com o lençol, de novo.

ilustra promocional anjo

O trem

Há pouco mais de vinte anos, quando acesso à informação não era lá essas coisas, era até compreensível que as pessoas tivessem fontes restritas ao que conseguissem alcançar.
Com a internet, a informação tornou-se, teoricamente, acessível a todos. Assim como pontos de vista. Então vieram os logaritmos, a facilidade em se fechar em seus interesses, suas cavernas particulares.
Um paradoxo. Nunca se teve um mundo tão aberto. E talvez nunca as pessoas estiveram tão centradas em seus umbigos.
Os caminhos que o Brasil tem aberto para os próximos anos é fruto do consumo intelectual do: “gosto disto e é isto que vou ler/ouvir, assistir a… E dane-se, lacrei!”
Chegou o momento de desconfortar-se. De pensar sem preguiça. De questionar. Ou a luz que veremos no final do túnel não será a esperança. Será o farol do trem que vai nos destroçar.

Exceção

Desde antes de iniciar minha carreira literária, mantive a seguinte postura: não publicar minhas escolhas de urna, nem fazer propaganda eleitoral.

Desta vez, vou abrir exceção para uma de minhas regras. Porque mais que polarização, como gostam de dizer por aí, vivemos, isso sim, um momento de flerte com uma perigosíssima alma de fascismo declarado.

Não vou justificar minhas escolhas. Aqui vão elas:

Deputada estadual: prof Rosana 50321

Deputada federal: Durvalina Soares 5057

Senadores:

Eduardo Suplicy 131 e professora Sílvia Ferrado 500

Governadora: prof Lisete 50 no primeiro turno. No segundo, qualquer um que disputar com o Dória, até mesmo o Skaf.

Presidente: Ciro 12. No segundo turno, qualquer um contra o Bolsonaro, mesmo o Haddad (muito a contragosto, mas não admito voto nulo).

Solo

Ainda acredito que a maioria das pessoas age como uma raposa quando falam da nulidade de suas vidas amorosas. Na fábula, a raposa que não consegue alcançar as uvas as declara verdes e azedas. O mesmo fazem os solitários e solitárias com suas frases “antes só do que mal acompanhado”, ou “eu me basto”, ou “o que importa é amar eu mesmo/a”.

Vivi com minha família até os trinta, quando montei uma família nova. Hoje, depois dos 45, pela primeira vez, moro sozinho (a companhia felina não conta). E não tenho restrição em dizer: não curto nada.

Não que eu possa fazer algo a respeito. Quer busque companhia, quer não, o resultado tem sido o mesmo: fracasso. Então, se o esforço e o ócio têm o mesmo resultado, a lógica manda escolher a economia de energia, recursos e tempo.

Claro que é vê alguns casos pós divórcio. Quem nunca? Mas quase todos me fizeram lembrar uma metáfora que Frank Miller colocou em seu “Daredevil”. Ali, ele comparou a relação vazia de seu personagem com uma cliente com uma tentativa frustrada de parar a hemorragia com papel de seda.

Não gosto da solidão, nem me entrego à hipocrisia aveludada da raposa. Talvez, se ao invés de camuflarmos a dor da falta de amor com as famigeradas frases de auto-amor, assumíssemos e nos abríssemos ao que realmente importa, haveria mais espaço para o amor de verdade. E talvez parassemos de usar tanto papel de seda.

Anardeus — Homens e mulheres

Homens e mulheres não se entendem. Mas não é como esses humoristas de palco nu gostam tanto de gozar. Eles só repetem mentiras e anedotas sem graça, para os tolos rirem. Não de suas próprias mazelas, mas das dos outros. Principalmente os mais fracos.

Mulheres não sabem nada sobre nós. Porque nascemos com uma necessidade instintiva de nos escondermos. Para as mulheres, mostramos nosso melhor, durante a maior parte do tempo. Muitas vezes, mostramos nosso pior, nossa monstruosidade. Muito raramente, revelamos nossa verdade. Somos hipócritas. E sabemos que as mulheres também são hipócritas e dissimuladas. A diferença é que sabemos de que maneira, e usamos isso a nosso favor.

Eu e Mephisto

Há muito tempo, li um livro chamado Mephisto, de Klaus Mann. Lembro poucos detalhes, é verdade, mas ele causou grande impacto em minha mente jovem de artista iniciante.
Conta a história de um ator alemão, Hendrik Hofgen, militante do partido comunista, que, com a ascensão do nazismo, mostra que suas convicções moldam-se livremente ao sabor de sua ambição. Em pouco tempo, para se tornar uma estrela teatral, ele abandona e traí amigos e amores. Mephisto, ou Mefistófeles, personagem do poema Fausto (Goethe) é seu papel mais grandioso.
Penso sempre nesse livro quando me deparo com uma situação como eu a que acredito que estamos vivendo.
A isenção política total é uma grande mentira. Somos seres políticos. Para os artistas, por mais que alguns queiram se manter isentos para agradar a todos, para manter seu sucesso e a venda de sua arte, sempre — sempre — haverá um momento em que sua posição será cobrada e uma resposta isenta não será suficiente. Nesses momentos extremos, não só sua arte ou sua popularidade que estarão em jogo. Estes serão preços menores. Será sua alma.
É nessa hora que penso no ator descrito por Mann. Como não quero, jamais, trilhar seu caminho. Mesmo que tantos o façam.
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Digo isso tudo por causa da nova polêmica que envolve a cantora Anitta e seu “declarado” silêncio sobre #elenao. A comunidade LGBT, base de seu público, sente-se traída. Tem tanto direito a isso quanto ela tem direito a ficar sobre um muro que racha sob seus pés e passos de funkeira.
Ela é um Hendrik Hofgen, que acredita que a isenção garantirá seu Mephisto.
Também pode ser que ela vá votar em vocês sabem quem e sabe que isso é um suicídio de carreira.
Vai saber… Ela tem esse direito também.
Mas, sabem, o que acredito é que arte nem sempre é questão de simplesmente gozar seus direitos. Às vezes, arte significa defender suas convicções do que é certo, resistir e denunciar. Arte não é só curtição…