O chato quase inteligente

Tem um tipo de chato que me incomoda profundamente. É aquele cara que te faz até se sentir um homem das cavernas, porque é inteligente demais pra você acompanhar.
Como ele se faz perceber dessa forma? Descascando informações, curiosidades e parecendo uma referência bibliográfica viva. Cita uma lista de escritores, filósofos e afins dos quais a maioria dos mortais nem ouviu falar.
Mas aí é que está o engodo.
Ele tem muita informação na cabeça. Mas não pense que ele sabe utilizar isso de outra forma que não seja alimentar sua suposta superioridade.
E ser chato.
Dou um exemplo:
Certa vez, participei de uma reunião do condomínio onde morava. Tinha um desses chatos lá. Ele pedia a palavra toda vez. Alguns momentos, para dar algum dado interessante, mas que não ajudava no debate, como a origem das máquinas dos elevadores. Na maioria das vezes, no entanto, era para apresentar algum dado fora de contexto e desviar a conversa para algum outro problema que ainda não estava na pauta.
Ou seja, falava pra caramba e desviava o assunto.
Ou seja, atrapalhava a reunião.
Ou seja, era chato!
Precisávamos votar algo simples. Concertar as paredes do fosso do elevador para que mais reboco não caísse e acabasse causando um acidente, como já tinha acontecido naquela semana e que, por sorte, não tinha machucado ninguém. Simples, né? Votar uma reforma para garantir a segurança dos moradores.
Pois esse chato fez a reunião durar um triplo do tempo e desviou o assunto e a pauta mais vezes do que consegui contar. Só atrapalhou e, se não o tivessem finalmente cortado, com certeza, algumas semanas depois, alguém seria atingido por concreto dentro do elevador, talvez enquanto estivesse levando os filhos para a escola.
O chato é muito perigoso.
Esse tipo de chato usa uma verborragia cheia de cortesia, bibliografia, auto-isenção e retórica acusatória para defender alguma ideia imbecil ou simplesmente confundir o debate. Os objetivos são variados. Mas, se for um chato, pode crer, não serão bacanas. Ele só quer encher a paciência das pessoas e se sentir superior.

Como Anardeus já foi

Anardeus nasceu no final da década de 1980, quando eu estava no Senai. Na minha ignorância juvenil, dizia que ele era um anarquista, sem nem saber o que isso significava, realmente. Quando suas tiras de humor foram publicadas num jornal regional da Mooca, alguns anos depois, era apenas um tipo de rebelde sem causa, que gostava de causar confusão e contrariar todas as regras sociais.
Mesmo sendo meu único personagem publicado por algum tempo, nunca me preocupei em me aprofundar em sua personalidade. Não era tão interessante.
Só fui revisitá-lo em 2013, primeiro como um conto, depois como meu segundo livro.
Desta vez, eu o compreendi, ampliei, recriei, expurguei. Tornou-se meu personagem mais controverso.
Redesenhei uma das piadinhas que escrevi para ele nos anos 1990 e resolvi colocar no zine que estou produzindo.
Aí vai:

Chegamos lá e adiante

Então… já chegamos à marca oficial (fora a subnotificação) de mais de mil mortes POR DIA por covid-19.

Significa, que em pouco mais de três dias, meu caro Caio Copolla, morrerão mais pessoas no Brasil do que gente que se engasga com comida nos EUA, já que você gosta desse tipo de comparação absurda.

Significa, senhor Roberto Justus, que no mesmo período, devem morrer bem mais pessoas do que a quantidade de funcionários de suas empresas. Incluindo aí os participantes dos Aprendizes que você apresentou.

Significa, menino carequinha da Havan, que até o fim deste mês, só dessa “gripezinha” vão morrer bem mais brasileiros do que você ameaçou demitir.

Significa, senhores prefeitos e governadores, que só dessa doença, POR DIA, morrem mais pessoas do que qualquer tragédia que tenha comovido os brasileiros nos últimos anos.

Significa, senhor presidente, que sua inércia e preocupação apenas com seu cargo e seus privilégios, leva a esse número diário não só das mortes mas também do desemprego, da desesperança, da fome, da miséria.

Significa, amigos brasileiros, que estamos colhendo os frutos de más escolhas, do ódio acrítico, da tolerância com a violência, o preconceito e a ignorância. Que dar voz à imbecilidade, como se fosse um joguinho divertido, sem consequências.

E colhemos os frutos de más administrações anteriores, sim. Mas, agora, com um distanciamento que mistura todas elas num mingau histórico com o a qual se deveria aprender a evitar, não a cometer todos os mesmos erros de uma vez! Não tente negar a responsabilidade direta de quem está com o poder agora, com acusações a esse ou aquele passado. É outro tipo de negacionismo. Chega disso!

Lamento apenas que, como nação, ficou claro que o brasileiro precise sofrer extremos para entender o básico.

As histórias de meus livros – Cira e o Velho

Em 2010, depois de superar a frustração de publicar uma HQ (o fracasso é culpa minha e só minha), aventurei-me numa nova publicação. Primeiramente, tinha planejado fazer outra HQ. Mas no meio do processo percebi que a história se encaixaria melhor em prosa. Foi basicamente assim que nasceu Cira. Uma aventura para viver a aventura de voltar a publicar.
A inspiração para a história veio de minha admiração pelos trabalhos de Robert E. Howard, Tolkien, Neil Gaiman e Jorge Amado. Parece até contraditório que tantos autores de origem anglicana tenham inspirado uma obra tão brasileira quanto Cira, mas pelo menos três desses autores têm uma característica forte em comum. A admiração pela própria cultura.
A princípio, eu havia planejado fazer com Cira algo como em Conan. Um mundo compacto, que mostrasse culturas variadas, todas representantes de nações reais. Minha ideia era, basicamente, transformar a cultura brasileira numa espécie de mundo paralelo.
Não demorou para que eu percebesse que seria uma bobagem e um desperdício.
A história e a mitologia brasileiras são tão ricas. Só são pouco exploradas.
Lancei o livro em 2010, em plena onda vampiresca capitaneada por crepúsculo. Recebi reações das quais, hoje, tenho distanciamento suficiente para rir.
Mas Cira prevaleceu. Até hoje, é meu livro mais vendido.
E do qual me orgulho.
Pela Sisko, lancei uma segunda edição. Com o olhar de um autor com dez anos de experiência, agora, com estilo mais robusto, menos enganos, mais convicção.

Na história, a bruxa Guaracy tem uma filha com o poderoso cobra Norato. Cira é seu nome. Um espírito livre, passional, destemido. Ainda criança, é vitima de uma trama nefasta arquitetada por sua tia, Maria Caninana.
Sobrevivente de um massacre, cabe a ela buscar vingança contra o paulista Domingos Jorge Velho.

A nova edição tem notas de rodapé, glossário e bibliografia, além do conto A Dama e O Poeta, que conta uma história de Nhá, a companheira de aventuras de Cira.

Você encontra a versão para kindle na Amazon. A versão impressa vai com dedicatória e marcador de páginas, mas está à venda apenas no site da Sisko.com.br

Sortudo

Acho que descobri o problema do brasileiro: confiar na sorte. Seja qual for a probabilidade.
O cara é pobre, ferrado, vende o almoço para pagar o jantar, mas sabe por que ele é contra a taxação de grandes fortunas? Pelo motivo que ele não assume: acha que, se um dia virar milionário, não vai querer pagar esse imposto. Porque ele acha que essa possibilidade existe. Mesmo que só 1% da população brasileira é rica.
Mesma coisa que faz a galera furar quarentena. Já que 80% não apresenta sintomas ou tem sintomas leves, ele COM CERTEZA estará nesses 80%. Isso SE pegar.
Brasileiro precisa começar a ser um tico mais pessimista. Mas pessimista de verdade, não aquele que faz piada, mas no fundo acha que vai ficar tudo bem.
Um pouco de pessimismo faz a gente se movimentar. Mudar, ir atrás.
É como o arrependimento.
Não acredite em quem diz que você não deve se arrepender de nada. É o arrependimento, a vergonha, a culpa que fazem a gente perceber que fez bobagem e aprender a não cometer o mesmo erro.

Desabafo

Este texto foi publicado no Facebook, em 6 de maio de 2020. Eu o copiei aqui porque foi apagado na rede social. Não houve outro motivo que não fosse evitar rotulação pelo algoritmo do Facebook.

 

Este é um textão de desabafo. Pule, se quiser. Até recomendo.
Quem me conhece, sabe que sou crítico não à candidatura ou presidência deste que aí está. Há muito, sou contra sua existência. Pelo menos na vida pública.
Por mim, nem deputado ele seria. Na verdade, nem síndico.
Mas aí está. Que fazer? Há muito o que fazer, mas parece que os limites da sociedade brasileira estão absurdamente elásticos, quiçá nem existam mais, já tenham sido arrebentados.
Que fazer?
Eu tenho uma teoria para explicar a situação em que nos encontramos. (Leve em consideração que não tenho formação acadêmica para essa teoria. Na verdade, uma hipótese).
O despresidente é um psicopata. E esqueça aquele conceito Hannibal Lecter de psicopata genial. Existem muitos psicopatas por aí. Pouquíssimos têm o charme de Lecter. Pouquíssimos mesmo. Aliás, poucos são assassinos como ele. A maioria é apenas oportunista, mentirosa e destruidora. E mantém pessoas das quais se alimentam (no sentido figurado) como reféns de seus desejos e necessidades. E essas vitimas, enquanto tal, os defendem, brigam por eles, prestam-se a papéis que não fariam se estivessem em seu juízo.
Parece com o despresidente?
Pois eu acredito que sim. Ele e sua família têm uma parte considerável dos brasileiros como reféns. O resto, assim como os amigos e familiares das vítimas solitárias dos psicopatas individuais, assistem à degradação sem saber o que ou como fazer para se livrar daquele tipo nefasto.
Na maioria dos casos, os psicopatas se cansam e vão embora, deixando um rastro de devastação na vida de suas vítimas. Mas demoram. E a devastação é grande. E as vitimas demoram a pedir ajuda, a perceber onde estiveram, o que deixaram que fosse feito com suas vidas.
Assim como acredito que está acontecendo com o povo brasileiro.
Uma porcentagem, por variados motivos, se tornou vítima de um psicopata (de uma familia deles seria o correto dizer). O resto assiste a tudo boquiaberto e apático. O país caminha para o caos. Não fossem as atitudes de alguns governadores e prefeitos que escolheram se manter no lado correto da História (por oportunismo político, não por índole, não se enganem), estaríamos em situação ainda pior.
Não estou otimista quanto ao que nos espera ali na frente. Não caminharemos juntos. Uma multidão de vítimas ignorantes e inconsequentes forçarão a morte deles mesmos e dos inocentes que serão arrastados.
A crise econômica virá com um peso ainda maior, causado justamente por aquele que vociferava querer preservar a economia. Mentiroso, como todo psicopata. Também preguiçoso e egoísta. Levará o país para um buraco fundo. Muito fundo.
O que fazer?
Não sei. Por isso sugeri que você não lesse este texto.
Estou cansado. Mimhas postagens sobre assunto, se você reparar, sumiram. Não quero mais o algoritmo me qualificando e/ou colocando um alvo em mim. Em breve, este post também sumirá.
Não sou religioso, mas peço a qualquer força que exista no universo, que olhe por nós.
Porque nós não estamos olhando. Somos todos vitimas.