Meu tio quase xará

relogio do vo

Este relógio de bolso tem mais de cem anos. Foi do meu avô paterno. Está comigo há uns trinta. Não funciona. Já mandei consertar umas duas vezes e ele voltou a parar. Resolvi deixar como está.
Quem me deu foi o irmão mais novo do meu pai. Tio Valter. Isso mesmo, quase meu xará, não fosse a diferença da primeira letra.
Até ontem, era o último dos quatro irmãos ainda vivo. Não casou nem teve filhos. Em seus últimos anos, sofreu com as saquelas de um AVC que paralisou toda uma lateral de seu corpo e, ironicamente, deve tê-lo poupado das dores do câncer que surgiu não faz muito tempo.
Quem cuidou dele no final foram as irmãs e as sobrinhas e sobrinhos. Nos últimos dias precisava de oxigênio constante e se alimentava por sonda.
Foi-se esta noite. Cada um crê em um destino para a alma. O que sei dizer é que viveu, conseguiu inspirar amor na família e, agora, descansou. Se há algo depois, e se for do tipo que se tem que merecer para ir para um bom lugar, então é pra lá que ele foi. Porque ele fez por merecer.

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