Cidadão de bem

Aquele sujeito de cabelo bem cortado, tênis confortável, do tipo caro, que não agride a joanete. Pode ser jovem ou ter idade avançada, não importa, porque seu espírito é velho. Não daquela velhice recheada de sabedoria e sensibilidade. Sabe aquela que se queima pelos outros e provoca choro fácil? Nada disso. Esse ser — ainda vivo? — tem mesmo é aquela velhice carcomida, covarde, que ataca e briga, com ou sem motivo que se possa ou não ver. Essa pessoa, se é que se pode dar nome tão nobre, anda por aí, livre, e conversa e discursa. E nada em sua conversa e em seu discurso tem frescor, aconchego ou convite. Tudo é luta e acusação, briga e reclamação.
Cidadão de bem. Cidadã de bem. É como se chamam. Tem muitas mulheres nesse meio. De almas tão decomposta quanto as dos homens. Com que se importam todos eles e todas elas? Com um conforto estranho, que ninguém ameaça. Um tesouro qualquer que ninguém sabe qual é, ninguém vê, ninguém sequer quer.
Cidadão de bem acusa o roubo do outro e não quer que apontem o seu, que nem rouba acredita ser. Como o cidadão de bem rouba, esse maroto! Ele consome e corrompe. E seu mal é melhor que o de qualquer um, porque é bem. Para ele e seus filhos e filhas. Sua corrupção é negócio. A correção dos outros, todos menores, menos importantes que ele, nada mais é que ditadura. Cidadão de bem não tem limite no quanto gosta de ditar regras para as vidas dos outros.
Cidadão de bem mente. Quer saiba a verdade, quer não. Sua língua não presta para muita coisa além disso e de vociferar. E como vocifera, esse sapo velho! Ele cospe, chuta, rosna e xinga.
Cidadão de bem quer que todos morram. Quer ser o último a andar sobre o planeta, que é um disco chato e ditado pela força oculta de vozes que apenas ele escuta e por palavras que só ele lê e repassa.
Cidadão de bem deveria ficar em sua casa, enfiar a cabeça entre os joelhos e esperar a morte, que há muito o deixou por aqui, pois não aguenta sua vociferação, sua ditadura, sua moral, sua luta e sua reclamação.
Cidadão é que não é.
Cidadão, e de bem, nada tem.

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