Sangue… de barata

Eu vou dizer algo que talvez muita gente discorde e até tente me dissuadir.
Escritor é uma pessoa como outra qualquer. A régua de julgamento profissional é finita. Ou seja, vai até um certo limite, como acontece com qualquer profissional.
E lembremos que escrever é uma arte, portanto, o escritor, como qualquer artista, provavelmente remexe seus sentimentos com mais frequência que vários outros profissionais.
Exigir atitude “profissional” (leia tolerância) com haters, pessoas mal educadas, ou de mau caráter é um pouco demais.
Resumindo… Escritor não tem sangue de barata.

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The Lady and The Poet

Lembram que falei que meu conto “A Dama e o Poeta” estaria em uma coletânea de contos de fantasia e ficção científica americana? Aí está a capa do livro!
Curti muito e quero os dois volumes.
Aliás, para quem não conhece a história, nos próximos dias, vou carregar o conto na Amazon, em português.
E não esquecendo nunca de mencionar o Fábio Fernandes que fez a ponte entre eu e o editor Bill Campbell, que ouviu falar do conto graças ao prêmio Hydra. E o Christopher Kastensmidt que traduziu o conto para o inglês (brilhantemente, diga-se. Sério, ficou sensacional).

Covardia

De todas as justificativas de apoiadores de Bolsonaro, a que mais me irrita é: “Ele tem coragem de dizer a verdade”.
Porque:
1 – Uma parte considerável do que ele fala é invenção (para não dizer mentira).
2 – Que verdade? Discurso de ódio? Desde quando são verdades? E desde quando é preciso “coragem”? Não é coragem que impede muitas pessoas a repetir as merdas que ele diz. É vergonha. Porque, nem tão fundo assim, elas sabem que estão erradas.
3 – Torço para o dia em que muitos alcancem maturidade suficiente para perceber que não é coragem o que motiva a carreira de Bolsonaro. Nunca foi, provavelmente nunca será. É justamente o contrário. É a mais pura e simples covardia.

Meu tio quase xará

relogio do vo

Este relógio de bolso tem mais de cem anos. Foi do meu avô paterno. Está comigo há uns trinta. Não funciona. Já mandei consertar umas duas vezes e ele voltou a parar. Resolvi deixar como está.
Quem me deu foi o irmão mais novo do meu pai. Tio Valter. Isso mesmo, quase meu xará, não fosse a diferença da primeira letra.
Até ontem, era o último dos quatro irmãos ainda vivo. Não casou nem teve filhos. Em seus últimos anos, sofreu com as saquelas de um AVC que paralisou toda uma lateral de seu corpo e, ironicamente, deve tê-lo poupado das dores do câncer que surgiu não faz muito tempo.
Quem cuidou dele no final foram as irmãs e as sobrinhas e sobrinhos. Nos últimos dias precisava de oxigênio constante e se alimentava por sonda.
Foi-se esta noite. Cada um crê em um destino para a alma. O que sei dizer é que viveu, conseguiu inspirar amor na família e, agora, descansou. Se há algo depois, e se for do tipo que se tem que merecer para ir para um bom lugar, então é pra lá que ele foi. Porque ele fez por merecer.