Ciclo da vida

Vô rico, filho nobre, neto pobre.
Vô conhece os horrores do nazismo.
Filho vota em nazista.
Neto vive na ditadura….

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Gatos e lagartixas

Os cães, perfeitamente adestrados, vão latir e morder, surdos a qualquer outra ordem, que na a de seus donos. Cegos para qualquer lógica, imunes a qualquer lamento.
E apenas gatos pingados e lagartixas teimosas serão resistência e oposição, empurrados mais e mais fundo na escuridão e na noite, de onde atacarão em silêncio, com pouca força, mas muita precisão.

Anandinho e o muro

Anandinho está sobre o muro. Ali no alto, ninguém o alcança.
Anandinho se sente seguro.
Ali de cima do muro, ele vê tudo. Do alto e de longe.
Anandinho se sente muito inteligente.
Ali de cima, pode cuspir em todo mundo e ninguém cospe nele.
Anandinho se sente superior.
Ali embaixo, está acontecendo uma briga. Anandinho não entende o que está acontecendo. Está longe demais. Ouve uns palavrões, vê algum sangue e declara, do alto de seu muro seguro, que todos ali embaixo estão errados. Sem exceção. Só ele está certo. Só ele consegue ver tudo de cima.
Do alto de seu muro seguro.
As pessoas lá embaixo vão embora. O barulho acaba.
Anandinho pode dormir.
.
É noite. Anandinho acorda por causa de um estrondo.
Sente o tremor.
Tem alguém marretando seu muro.
“Pare!” Ele grita. “Eu não tenho nada a ver com isso. Deixem meu muro em paz”
Lá de baixo, alguém responde:
“Esse muro agora é meu. E ele vai pro chão!”
Anandinho cai e vai para a fila dos derrotados. Ele nem tinha visto que havia uma, lá de cima.
.
Ignorar não salva.

Amor eterno enquanto dura

Uma amiga minha viu um casal idoso caminhando com as mãos dadas na rua e achou lindo. Um símbolo do amor duradouro. Foi conversar com eles, toda sorrisos.
Ele tinha 71, ela, 68. Estavam no terceiro casamento dele e quarto dela. Haviam se conhecido numa excursão para Mato Grosso do Sul há um ano e meio.
.
As pessoas anseiam e BUSCAM o amor duradouro.
Por isso, pulam de um relacionamento para o outro.
Porque estão sempre em busca. Nunca param para avaliar se já não encontraram.

O primeiro capítulo do apocalipse

E aqui está o prólogo de mais um livro: apocalipse traído:

Prólogo
Eram sete, não quatro. E nunca subiram às costas de qualquer animal. Seus pés bastavam para suas viagens.
Eram sete, mas só restaram quatro, pois três não gozavam de respeito.
Quatro não sentiram orgulho pelo que fizeram. Tampouco culpa. Quatro bastavam, disseram.
Eram sete, mas entregaram três à crueldade das pessoas, para queimarem na fogueira.
Eram sete, agora, são quatro. E ainda não se sabe por que se diz por aí que cavalgam. Para quatro que restaram e para três que se foram, seus pés bastavam.

•••

Aldo resgata uma escada de madeira podre que estava caída na calçada, posiciona, abre aquele seu sorriso maroto e sinaliza um joinha para o resto da turma. São dez da noite. Ele, Tonhão, Cibele e André estão junto ao muro que circula o aterro de lixo em frente ao clube Ceret e mal toleram o fedor que grita de lá do outro lado.
Apesar do sorriso e do carisma de Aldo, seu convite não é atrativo:
— Vamos, pô!
— Nem a pau — André responde rápido. — Não tirei a noite pra ficar remexendo lixo — completa, e afaga a cintura de Cibele. Tonhão repara. Uma bola de fogo acende em seu estômago e sobe até a garganta. Tem abafado um ódio ciumento de André desde que percebeu que ele e Cibele estavam de namorico, há duas semanas.
— Larga de ser bunda mole — Aldo desafia. — O Tiba falou que já encontrou uma barra de ouro perdida aí no lixão.
— O Tiba mente pra caramba — Tonhão rebate. — Todo mundo sabe disso.
— “Pra caramba”? — Aldo diz, rindo. — Porra, Tonhão, larga de ser cu de ferro.
— Que foi? — André pergunta baixo para Cibele.
— Tonhão não fala palavrão — ela explica.
Aldo bufa e descansa as mãos na cintura. Balança a cabeça, pensa um pouco e dispara:
— Que se foda! Se vocês são uns bundões, problema de vocês.
Sobe pela escada. Fica em pé sobre o muro, acende uma lanterna, ilumina o ponto onde pretende aterrissar e salta para o outro lado. André balança a cabeça e xinga. Pega na mão de Cibele e declara:
— Vambora, Ci. Não vamos passar nossa noite no lixo.
Cibele não responde, apenas o fita com uma perplexidade que Tonhão já conhecia de outras discussões. O olhar de “donde cê tirou a puta da ideia que manda em mim?” Ele mesmo já foi alvo desse olhar. Uma vez, para nunca mais.
Ela puxa a mão que o namoradinho segurava e é a segunda a subir pela escada e pular para dentro do aterro. Hesitante e derrotado, André vai atrás. Tonhão, logo depois. Quando chega ao alto do muro, tudo o que vê do outro lado é um minúsculo oásis livre de lixo e iluminado pelas duas lanternas acesas. Uma com Aldo, outra com Cibele. Aterrissa e solta um gemido de arrependimento.
— Você também trouxe lanterna? — pergunta para Cibele.
— Não, bobo. É do Aldo — ela responde.
Sua voz é suave e firme. Tonhão gosta de ouvi-la. Em algumas ocasiões — e esta é uma delas — faz perguntas tolas só para ser chamado de bobo com aquela voz e aquele sorriso.
— Que esquisito — André comenta. — Por que tem esse lugar aqui sem lixo?
Aldo explica:
— É onde os maconheiros ficam pra fumar. Por que você acha que tem uma escada ai fora?
— Como é que você sabe? — André pergunta.
Aldo ri:
— Eu conheço todas as quebradas do Tatuapé, mano.
— Conhece nada, não exagera — Tonhão o corrige, com um sorriso de cúmplice. — O Diva já me chamou pra puxar aqui — comenta — mas sempre achei um lugar ruim. Nunca aceitei. Prefiro o quintal do Toco, perto do riozinho.
André sussurra para Cibele:
— O cara não fala palavrão, mas fuma maconha?
Ela ri.
— Vamos — Aldo indica, e sai escalando e tropeçando pela escuridão e lixo.
— Cuidado com o ferro — Cibele avisa, e ilumina um pedaço de concreto do qual saltam vigas enferrujadas. Sai atrás de Aldo, como se fosse a coisa mais lógica a fazer. Os outros dois seguem.
Avançam e desviam de todo tipo de perigos. Os cheiros se confundem e atingem os narizes como petelecos. A consistência do que Tonhão pisa varia e ele nem quer imaginar o estado em que devem estar seus tênis. Aldo segue em frente, como se soubesse para onde está indo. Tonhão repara:
— Tá procurando alguma coisa, Aldo?
Não recebe resposta. Seu amigo apenas avança para uma geladeira velha, deitada com a porta virada para cima sobre um monte do que parecem livros. Tenta abrir e não consegue. Usa um pedaço de pau como alavanca, mas ele parte na segunda investida.
— Que tem aí? — Tonhão pergunta. Mais uma vez, fica sem resposta.
Aldo encontra uma barra de ferro, uma nova alavanca, mais resistente, e que aguenta o tranco.
— Ajuda aqui, caralho! — rosna para os outros.
Tonhão acode.
— Ajuda lá, André — Cibele diz.
— Por quê?
— Tá difícil, não tá vendo?
— Ajuda você, então.
— Estou segurando as lanternas. Vai lá, frouxo.
— Essa foda tá dando muito trabalho, viu? — André rosna para si. E vai ajudar.
Se Tonhão conseguiu ouvir o último comentário de André, é impossível que Cibele não tenha. Ela não diz nada. Por enquanto. Tonhão a conhece, sabe que o namoradinho não ficará impune.
Conseguem abrir a porta da geladeira e encontram um baú de madeira velha e carcomida. Aldo o resgata e deposita sobre uma churrasqueira portátil que Cibele ajeita para servir de mesa.
— Que é isso? — Tonhão pergunta. — Como você sabia desse baú?
— Não sabia — Aldo responde.
— Como não? — André se mete. — Você veio direto pra cá. Abriu ESSA geladeira e agora vai dizer que foi assim, do nada?
— Pura sorte? — Tonhão insiste.
— É — Aldo responde.
— Não fode — André reclama.
— Ah, Aldo… larga disso — Cibele caçoa. — Você nem sabe mentir.
— Eu só… — Aldo ameaça uma confissão, mas não diz nada.
Os quatro ficam meio minuto em silêncio, observando o baú à luz das lanternas. Uns 50 ou 60 centímetros de comprimento, 30 de largura, o mesmo tanto de altura. A tampa arredondada, os cantos e todo o contorno reforçados com um metal sujo. As dobradiças inteiras, apesar da sujeira. Está trancado com um cadeado grande, carcomido por ferrugem. Abre com duas pancadas da barra de ferro de Aldo. Aberta a tampa, os quatro são atingidos por um cheiro cítrico e viscoso, que entorpece e também desperta.
— Que… — Tonhão tenta falar, mas sua voz não obedece mais. Um frio rastejante sobe por suas costas.
Dentro do baú, três crânios, limpos, branquinhos, desdentados e sem as mandíbulas.
— Era isso que você estava procurando, Aldo? — Cibele pergunta.
— Não, porra… Nem sabia que isso tava aí.
— Não fode — André repete. — É lógico que você sabia. Veio direto. Como é que você sabia dessa porcaria?
O silêncio de Aldo persiste. Tonhão interfere:
— Fala logo como é que você soube dessa porcaria!
— Tiba que deu o toque — ele revela. — Falou que viu um camburão da aeronáutica encostar e os soldados trazerem a geladeira pra cá.
— Da aeronáutica? — André grita. — E você trouxe a gente aqui pra recolher caveira de uma geladeira da aeronáutica?
— Eu não sabia de caveira nenhuma, porra!
— E o que você pensou que teria aí?
— Sei lá, pô. Arma, munição.
— E pra que você quer arma e munição? — Tonhão estranha.
— Pra vender, trouxa, pra que mais seria?
— Que merda, Aldo! — André continua. — Podia ter uma bomba atômica aí.
Aldo solta seu riso forte, debochado. Tonhão percebe um timbre de nervosismo nele, mas não comenta.
— E pra que a aeronáutica botaria uma bomba atômica numa geladeira e jogaria no lixão? — Aldo pergunta para André, quando para de rir.
— E pra que a aeronáutica botaria armas e munições em uma geladeira e jogaria no lixão, também? — Tonhão rebate.
— Será que são presos políticos? — Cibele diz.
— Quê? — os três exclamam ao mesmo tempo.
— Pensem bem. Não faz tanto tempo que acabou a ditadura militar. Eles ainda devem estar se livrando dos corpos.
— Caramba, Ci, que imaginação — André caçoa, condescendente.
— Ah, claro! Ter carabina ou bomba atômica faz muito mais sentido, não é? Sério mesmo que você tem coragem de falar uma merda muito maior e ainda querer dar uma de inteligentão pra cima de mim? Só pode ser brincadeira, né?
Aldo solta outra risada. Dessa vez, sem o tom de nervosismo:
— Sifudeu!
André abre a boca para responder, mas engole a primeira tentativa. A segunda é um sussurro, quase inaudível, abafado pela gargalhada de Aldo:
— Vai tomar no seu cu…
A risada de Aldo definha enquanto leva o baú para perto do rosto. Examina, dá batidinhas com os nós dos dedos na testa de uma das caveiras e cheira. Os outros observam, agora atônitos, esperando uma declaração qualquer.
Aldo quebra o suspense:
— Ninguém parou para pensar que esses crânios podem ser falsos, né?
— E são? — Tonhão pergunta.
— Não parece. De plástico não são.
— E agora? — André pergunta.
Aldo examina o baú.
— Acho que é prata — diz.
— O quê? — Cibele pergunta.
— As dobradiças. Esse metal preto. Isso é prata.
— Como você sabe? — Tonhão diz, cético.
— Meu pai trabalha com essas coisas, esqueceu? Isso aí é prata, eu tô dizendo. Tá feio assim porque prata escurece. É só dar uma polida e ela fica como nova.
— E como vai ser? Você vai vender e dar nossa parte? — André pergunta.
Aldo olha para ele com ar de perplexidade por cinco segundos. Depois, mais uma risada explode:
— Que parte, maluco?
— Cê arrastou a gente pra este lixão pra quê? Vamos dividir o que der dessa prata aí.
— E cê fez o quê, hein? Só ficou me seguindo.
— Eu ajudei a tirar esse baú de dentro da geladeira.
— Porque a Cibele intimou.
— Não interessa. Estamos os quatro nesta porra de lixão, vamos dividir a prata em quatro. Você chamou, a gente veio, agora vai dividir. Se não queria assim, que não tivesse chamado.
— Não tem que dividir nada — Cibele se manifesta. — A dica era dele, o trabalho também foi dele, a gente só veio acompanhar.
— Ficou doida, Cibele? Viemos passar a noite no lixão por causa do seu amigo. Alguma coisa a gente tem que levar disso. Deixamos de…
— De quê? Deixamos de fazer o quê, André?
— Minha mãe viajou…
— Ah, então é isso. Achou que ia me comer, não rolou, agora tá aí, todo nervoso e querendo pegar dinheiro do meu amigo.
— E você acha que a gente tá melhor aqui neste lixão do que se curtindo lá em casa? Você é muito…
— O quê? Sou o quê? Burra? Vadia? Vai, do que você vai me chamar agora?
André não chama de nada. Apenas bufa, vira as costas e tenta ir embora. Mas caí cinco passos depois.
Cibele é generosa:
— Tá muito escuro, tonto. Tó, leva a lanterna — e joga.
Ele apanha a lanterna, rosna mais um palavrão e vai embora.
Quando Cibele se volta para os amigos, encontra uma cara de constrangida satisfação em Tonhão e outra de cínica diversão em Aldo, que diz, segurando o riso:
— Pô, você deu a minha lanterna praquele veado…
— Cala a boca, cê já vai ficar com esse baú cheio de prata, nem pensa em me encher o saco por causa daquela merda de lanterna.
Ele ri. Um riso discreto, agora, de cumplicidade, respeito. Tem um amor fraternal por Cibele. Como se fosse sua irmã mais velha. Sente o mesmo por Tonhão. Já disse muitas vezes que ele perde tempo, deixa os babacas chegarem nela. Devia tomar uma atitude, dizer o que sente. Mas Tonhão sempre responde com um “somos só amigos”. Aldo retruca: “Amigos somos eu e ela e eu e você. Vocês dois são só uns babacas que querem se pegar, mas que não resolvem essa merda. Não cagam, nem desocupam a moita.”
— Bom, então é isso. Vamos embora, também. — Aldo vira o baú e despeja as caveiras.
— Que você tá fazendo? — Cibele pergunta.
— Vou levar o baú.
— E esses crânios?
— Deixar aí…
— Não se joga crânio de ser humano fora assim, seu maluco.
— Por que não?
— Porque a gente não sabe de onde veio. De quem era…
— A gente faz o quê, então?
— Entrega pra polícia — Tonhão palpita.
— Isso não! — Aldo responde rápido.
— Por que não? — Cibele pergunta. — É o mais sensato.
Aldo fica em silêncio alguns segundos, matutando. Seus olhos tremem, enquanto o cérebro busca argumentos. Encontra:
— E se forem de presos políticos, como você falou?
— Mais uma razão para entregar pra polícia.
— Não, é justamente o contrário. Se for de preso político, os caras vão querer sumir com os crânios e com quem achou.
— Isso aí já é paranoia, Aldo — Cibele responde. — Se os caras estivessem tão preocupados, não teriam jogado desse jeito.
— Paranoia, porra nenhuma!
Então, Aldo apanha um dos crânios e Tonhão percebe, mesmo com a escuridão, que seus olhos mudam, ganham um brilho intenso de convicção.
Aldo apanha o outro crânio e o entrega a Cibele que, por instinto, o segura. Seu rosto também ganha uma expressão nova, uma que Tonhão nunca tinha visto. Calmaria, como se elucidasse um grande mistério.
— Pensando bem, acho que você tem razão, Aldo. — Ela diz.
— Como assim? — Tonhão quer interferir. Cibele entrega-lhe o último crânio, ele o apanha, e uma calma aglutinadora o toma, assim como uma preocupação legítima.
— É — ouve-se dizer — acho que entregar pra polícia não é uma boa ideia.
Sente uma distância de si mesmo, como se estivesse emprestando-se a outra consciência.
— Decidido então. — Aldo decreta. — vamos ficar com eles.
— Somos três, e são três crânios — Cibele concorda.
— Isso — Tonhão completa. — Não vamos deixar por aqui, jogados, nem deixar com o Aldo. Cada um leva um crânio e fica responsável em esconder.
— Mas é pra tomar cuidado, ouviram? — Cibele reforça.
— Cada um que cuide de sua caveira — Tonhão responde.
Fazem o caminho de volta, com menos cuidado, pisando no lixo com mais pressa e desprendimento. Entre um sofá arregaçado e um fogão enferrujado, Aldo abandona o baú, com suas partes de prata escurecida. Ninguém percebe e ninguém liga. Nem quando chegam ao muro e pulam de volta para a calçada.
Despedem-se com um tchau rápido e cada um segue seu caminho.
Cada um com um crânio.
Cada um que cuide de sua caveira.