O que tenho a dizer neste 8 de março de 2017

Aos amiguinhos:
Antes de você pagar de antenado e sair parabenizando a mulherada. Antes de você pagar de delicado e comprar a florzinha básica. Antes de você pagar de atencioso e sair falando um monte no facebook…
Pense, lembre, questione, enfrente:
No seu dia-a-dia, o que você faz para ajudar na luta das mulheres por direitos iguais? Você as respeita? Pra valer, de verdade, mesmo? Você chama a atenção do amiguinho quando ele fala alguma merda machista? Você se incomoda com a violência diária que é perpetuada contra as mulheres, ou é tudo da boca pra fora? Tudo hoje, só pra constar do seu calendário?
Sabe, se tem alguma coisa importante a fazer hoje, não é pagar de seja lá o que for que mencionei no começo. Hoje é dia – caso você ainda não tenha feito isso – de se perguntar essas coisas todas. Aproveite o dia de hoje para dar o primeiro passo na sua desconstrução.

Um exemplo do que digo quando falo “opinião é uma coisa, merda é outra”. Toda vez que é levantada a história do que o Bolsonaro falou para a Maria do Rosário (“só não te estupro porque você não merece”) sempre aparecem os defensores acéfalos com: “ele estava respondendo a uma provocação”.
Isso não é resposta, esse argumento não é opinião… nem argumento é, na verdade.
O que ele disse não tem desculpa, não tem outra interpretação, não tem justificativa. Foi uma aberração. Só. Mais nada. Quem tenta justificar e defender, ou tem problemas cognitivos sérios, ou uma má fé assustadora. Simples assim. Porque algumas coisas são assim, mesmo. Simples.

Meu último toque aos amiguinhos: Se mansplaining já é feio pra cacete em qualquer momento… hoje é especialmente tosco. Não seja esse cara…

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Youtubers jabazentos

Um bando de youtubers recebeu grana do governo Temer para elogiar a reforma do ensino médio. Veja o caso aqui.
Gravaram vídeos elogiando, sem dizer que era opinião paga (por si, ato anti-ético).
Já vi mais de uma pessoa defendendo os “meninos” por serem novinhos e os caralhos. Ou porque esse é um país capitalista e mercado livre e essas porras todas.
Vou começar pelo segundo argumento.
Defender oba-oba capitalista sem freios ou respeito à ética e, depois, sair pra rua ou gritar nas redes sociais ou bater panela contra corrupção são atos completamente contraditórios. É como um assaltante reclamar que não dá pra sair à noite porque tem medo de ser assaltado. Quem produz conteúdo, seja em jornal, revista ou internet, tem SIM que observar uma conduta ética. E ela é básica. Recebeu para falar de algo? No mínimo, avise que aquele conteúdo é pago. Fim de papo! Não vou ficar aqui discutindo o sexo dos anjos, essa porra é básica. Que tenha um monte de gente ferindo essa base não é argumento. O erro de um grupo não justifica. E, pelamor, não venha com papo de que as relações comerciais digitais são diferentes… honestidade não muda tanto em tão pouco tempo…
Vou só acrescentar uma explicação básica, já que tenho contato com muitos blogueiros e para evitar mal entendido. Receber um livro, um serviço ou qualquer outro produto para ser avaliado não é (na maioria das vezes) jabá. Livro, pelo menos, não é mesmo. É CONTEÚDO. Há décadas as redações de jornais e revistas recebem exemplares de livros para avaliar. A maioria já era e, agora, mais ainda, descartada, enviada para sebos. Eu mesmo enviei meu primeiro livro, Cira e o Velho, para várias redações de jornais, revistas e até rádios. Tive resposta de um jornal, e foi iniciativa deles, porque avaliaram o livro e se interessaram. Isso não é jabá, ok? Quando blogueiros recebem livros das editoras, não é, de forma alguma, pagamento por boas resenhas. Jabá é como já aconteceu comigo, quando eu ainda fazia o PsychoComics no Youtube. Enviariam um exemplar para divulgação e queriam me pagar R$ 500,00 pelo vídeo. Aceitei o livro mas recusei o jabá.
Sobre os ataques pessoais aos “meninos”. Isso é um pouquinho mais complicado, reconheço. Posso responder pelo meu lado. E vou me apropriar de um discurso que muitos desses vlogueiros já devem ter usado para justificar sua homofobia: critica-se a corrupção do sistema, não o corrupto… (er, mais ou menos…)
A verdade é que vivemos um momento histórico atípico (algum não foi?). Quando eu era moleque, devo ter falado muita bosta. A diferença é que não era nada fácil um moleque se tornar celebridade e, pior, influenciar opinião de uma quantidade significativa de outros moleques. Hoje, a internet liberou geral. Isso é bom e ruim ao mesmo tempo. Um efeito colateral da democracia é você perceber que existem muitos idiotas no mundo. Umberto Eco tinha alguma razão…
Ainda assim, a democracia ainda é o melhor caminho. E democracia significa que as pessoas podem questionar e criticar e serem questionadas e criticadas. O fato dos garotos terem sido investigados e seus tweets racistas, misóginos e homofóbicos antigos (por que não apagaram, já que mudaram de opinião?…) terem sido divulgados é consequência desse momento de ajuste das relações de fama que são novidade pra gente. Talvez eles não pensem mais assim (duvido), talvez eles estejam amadurecendo (duvido, também)… Mas, lá atrás, escolheram se manifestar de forma grotesca. Eram moleques, concordo, mas escolheram isso. Ora, algum poder de escolha eles têm! Não tinham consciência suficiente sobre as consequências ou o teor do que falavam?
Posso até concordar (mais ou menos). Mas e seus pais? Ninguém prestava atenção ao que eles manifestavam na internet, esse mural para o mundo? Sinto muito! Qualquer babaquice que eles falem é reflexo do que os pais ensinam dentro de casa. Pelo menos, na imensa maioria. Imensa, mesmo…
E, agora, uma agência paga pelo governo perpetua uma prática anti-ética (jabá) e escolhe os porta-vozes pelo número de inscritos nos canais, não pelo conteúdo ou postura já demonstrados.
jabba
Se bem que, convenhamos, a prática de jabá não atrai gente com caráter lá muito sólido…
E não podemos questionar isso?
Por que seria um ataque pessoal aos “meninos”?
Sinto muito por eles. Torço para que eles aprendam algo de realmente bom com isso (duvido). Mas é aquilo: Não sabe brincar, não desce pro playground, e o conselho vale para os pais dessas celebridades mirins. Se seu filho não deveria estar brincando no playground, cadê vocês que não prestaram atenção?

Minha retrospectiva 2016

Este foi um ano muito bizarro para a história do Brasil. Acredito que precisaremos de um distanciamento considerável para fazer avaliações minimamente isentas. Se é que conseguiremos. Hoje, a manipulação intensa da mídia e o contágio por interesses variados não permite.
Trabalhei menos do que gostaria e/ou deveria em 2016. Não tenho orgulho disso, também não tenho vergonha.
Participei de poucas feiras de livros com a Giz. A maioria teve vendas frustrantes, refletindo a crise brasileira. A Bienal, por exemplo, foi a menor que já vi e estava tomada por estandes de “ponta de estoque”. E também foi a que teve entrada mais cara. R$ 25,00 contra os R$ 12,00 da edição passada.
Temos ondas no mercado de livros. A do ano passado foi dos livros de colorir, sobre a qual tive a sorte de conseguir surfar. Este ano, foram os youtubers. Ondas vêm e vão e têm sua função econômica dentro das empresas/editoras.
Lancei meu terceiro livro e fiquei feliz com o resultado. É um projeto pelo qual tenho imenso carinho e foi minha estreia em uma grande editora (Verus).
Muitas mortes de famosos neste ano. E também muitas e muitas mortes de não-famosos. Massacres na França ganhando mais holofotes do que no Oriente Médio e África, mas assim caminha a humanidade, infelizmente.
Percebe-se, para quem quiser ver, um crescimento de movimentos retrógrados e uma escalada de ideais nefastos. No mundo inteiro, e sensivelmente aqui no Brasil. Os fascistas perderam a vergonha e têm a cara de pau de usar o jargão “é minha opinião” para justificar as barbaridades que falam e fazem. A classe média tem culpa considerável disso, no momento que deu braços a representantes desse pensamento em suas manifestações pelo impeachment, onde circularam livremente neo nazistas e amantes da ditadura militar. Mas quem sabe o quanto essa tal classe média, aquela que bateu panelas e vestiu a camisa da CBF, já não namora essas ideologias, intimamente? Donald Trump foi eleito presidente dos EUA e considero esse o ponto mais representativo do que estou dizendo.

Eu sou assim:

Acredito que o impeachment não foi legal. Foi um golpe de estado porcamente arquitetado e praticado, como a maioria das coisas que a elite do dinheiro brasileira faz. Ela adora dar tiros nos próprios pés. A história tratará (espero) de demonstrar isso.

Acredito que o Lula foi um irresponsável em muitos aspectos e que a Dilma era uma ingênua em outros tantos. Mas, até aí, penso o mesmo do Fernando Henrique e do Itamar…

Acredito que as pessoas perseguem o PT por motivos completamente equivocados e perigosos. Não é pela corrupção. É por ideias progressistas. Isso é que é assustador.

Acredito que quem rouba 1 e rouba 1 milhão precisa pagar… Mas prioridades são prioridades. Vamos pegar o que roubou 1 milhão primeiro, né?

Acredito que Michel Temer (que foi colocado lá pelo Lula, não vamos esquecer) é uma pessoa terrível para o País, assim como Renan Calheiros, mais da metade do congresso e do senado, incluindo aí muitos caras do PSDB, viu? Tudo bandido…

Não estava satisfeito com a administração da Dilma. Mas acho que tirá-la com o impeachment está longe de ter sido a melhor solução. Antes ela terminar o mandato aos trancos e barrancos do que essa zona anárquica e mafiosa que se instalou depois.

Mas…

Já perceberam que o “mas” está virando ligação entre uma mentira e um absurdo?
“Entendo a dor dela, MAS o filho era um bandido…”
“Não sou preconceituoso, MAS…”
“Não sou homofóbico, MAS…”
“Não sou racista, MAS…”
“O feminismo teve muitas conquistas, MAS…”
Meu medo do MAS só é superado pela irritação que sinto quando vejo alguém escrever MAIS no lugar….

Mistério

Tenho 44 anos, cabelos brancos, sangue quente e sou de peixes com ascendente em áries (essa última informação, na verdade, é inútil): É óbvio que tenho opinião sobre um monte de coisas. Sou opiniático pra cacete! Mas tenho o bom senso de guardar minhas opiniões e questioná-las sempre que possível, em vez de ficar estatelando-as por aí nas redes sociais. A não ser que eu tenha pela convicção do que estiver falando. E vai me dizer que essa caralhada de opiniões que você vê sendo descarregadas por aí foram devidamente analisadas?
Vale a máxima: Em silêncio, você pode ser um gênio ou um imbecil. Ao abrir a boca, você acaba com todas as dúvidas.

Tati e a empatia

Não sei nada sobre o filho da Tati Quebrabarraco (não sei nem se é assim que se escreve o nome dela). O que sei é que ela foi desabafar no Facebook. Eu soube que muita gente foi lá fazer comentários do tipo “é bandido tem que morrer”. Olha… pra que isso? Sério? Pra que ir lá no post de uma mulher que está chorando a morte do filho para fazer esse tipo de comentário? O que alguém pensa que ganha com isso?
E não, eu não aceito a explicação de que já que ela colocou na internet, é público e tem que aceitar que venham contrariar. Vou explicar procê, amigão que tenta se justificar: Não é uma porra duma celebridadezinha reclamando da caralha da cueca que rasgou sem que ninguém perguntasse! É UMA MÃE CHORANDO A MORTE DO FILHO. Se ela sentiu necessidade de extravasar sua dor na porra do facebook e você está pouco se fodendo, pra que caralhos você precisa ir lá e encher o saco da mulher? Fica na sua! Cacete!